domingo, 19 de abril de 2026

Sumaré ainda não havia sumido com os processos em papel

Vandalismo em Sumaré e o Processo Eletrônico — Marco Antonio Bosio

O vandalismo em Sumaré e a lição
que a administração pública
ainda se recusa a aprender

Quando processos em papel são rasgados por vândalos, a gestão pública paralisa. Quando processos são eletrônicos, o mesmo ato de destruição não apaga uma única linha. A tecnologia já existe — o que falta é vontade política para adotá-la.

0 Processos perdidos se
fossem 100% eletrônicos
SEI Sistema adotado por
Londrina e pela União
2007 Ano em que o TJPR iniciou
o processo eletrônico (Projudi)
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O Fato: Vandalismo na Procuradoria de Sumaré

Na madrugada do dia 17 de abril de 2026, a Procuradoria-Geral do Município (PGM) de Sumaré, no interior de São Paulo, foi invadida por vândalos. Processos e documentos foram rasgados, equipamentos como computadores foram danificados. O episódio, noticiado pelo G1 Campinas e pelo portal Reage Sumaré, causou estranheza justamente pela natureza dos atos praticados: os danos não foram os de um furto comum, mas um ataque direto à estrutura de funcionamento da gestão pública.

A própria administração municipal reconheceu que o tipo de dano "causa estranheza", pois atingiu diretamente a continuidade dos trabalhos administrativos. Mais do que equipamentos destruídos, o que está em risco são processos em andamento, prazos, documentos probatórios — tudo aquilo que sustenta a atividade jurídica do município. E é exatamente aqui que uma pergunta inevitável se impõe: por que, em 2026, esses documentos ainda existiam em papel?

📰 O que foi noticiado

"Processos e documentos foram rasgados e equipamentos, como computadores, foram danificados. O tipo de dano causa estranheza, pois atinge diretamente a estrutura de funcionamento da gestão pública — mais do que um eventual furto, os atos praticados impactam diretamente o andamento dos trabalhos administrativos, prejudicando a organização interna e a continuidade de processos importantes."

Fontes: Reage Sumaré  ·  G1 Campinas · 17/04/2026

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A Lição que o Caso Revela

O vandalismo em Sumaré não é, em sua essência, um problema de segurança pública — embora também o seja. É, antes de tudo, um problema de gestão. Um processo administrativo eletrônico, hospedado em servidor seguro ou na nuvem, com backups automáticos e acesso controlado por certificação digital, simplesmente não pode ser rasgado. Não desaparece com a destruição de um computador. Não some com uma invasão física. Continua existindo, íntegro, acessível e com toda a sua força probatória.

O papel, por outro lado, é vulnerável a incêndios, enchentes, fungos, ratos — e agora, como vimos, a vândalos. Procuradorias municipais que ainda trabalham com autos físicos carregam um risco institucional que vai muito além do inconveniente operacional: carregam o risco de perda irreversível de memória administrativa, de processos sem solução, de prazos perdidos, de responsabilidades que não podem mais ser apuradas.

O caso de Sumaré é um alerta. E o alerta tem um destinatário claro: todas as procuradorias municipais brasileiras que ainda não fizeram a migração plena para o processo eletrônico.

"Um processo em papel pode ser rasgado, queimado ou encharcado. Um processo eletrônico bem gerido não tem esse problema — e essa não é uma questão de futuro, é uma exigência do presente."
Marco Antonio Bosio — bosio.adv.br
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Londrina (PR): A Referência que Existe há Anos

Enquanto procuradorias de municípios de porte semelhante ainda lidam com armários de metal cheios de processos físicos, Londrina — segunda maior cidade do Paraná — já trilhou esse caminho e consolidou um modelo que merece ser estudado e replicado. O município aderiu ao Sistema Eletrônico de Informações (SEI), plataforma desenvolvida no âmbito do Processo Eletrônico Nacional (PEN) do governo federal, e tornou-se referência no conceito de "mesa de procuradoria sem processo em papel" — a estação de trabalho 100% sem papel.

O SEI não é uma solução improvisada: nasceu de um acordo de cooperação técnica entre o Ministério do Planejamento, a Embrapa, a Comissão de Valores Mobiliários e o Governo do Distrito Federal, e foi disponibilizado gratuitamente para qualquer ente federativo que queira aderir. Todos os documentos são criados digitalmente ou digitalizados, a tramitação ocorre em rede, os processos podem ser acompanhados em tempo real e nenhuma peça se perde com uma invasão física.

✅ O que Londrina implementou com o SEI

  • Processos administrativos 100% eletrônicos — criados, tramitados e arquivados sem papel
  • Acesso remoto pelos servidores autorizados, de qualquer dispositivo
  • Assinatura digital com validade jurídica plena
  • Rastreabilidade completa de cada ato praticado no processo
  • Eliminação de custos com impressão, transporte e armazenamento físico
  • Integração com outros sistemas da administração municipal

Fonte: Portal da Prefeitura de Londrina — Processo Eletrônico (SEI)

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TJPR e Justiça Federal: O Judiciário Já Chegou Lá

Se algum gestor municipal ainda precisar de argumentos para convencer sua administração a migrar para o processo eletrônico, basta olhar para o que o Poder Judiciário paranaense já faz há mais de 15 anos. O Tribunal de Justiça do Paraná implantou o Projudi — seu sistema de processo eletrônico — ainda em 2007, na comarca de Campo Largo. Desde então, o sistema foi aprimorado e integrado com delegacias, Ministério Público, procuradorias municipais, TRF4, Correios e Caixa Econômica Federal.

O próprio TJPR descreve os resultados: antes, inquéritos policiais precisavam ser impressos, transportados fisicamente e recadastrados no sistema do tribunal. Hoje, tudo tramita eletronicamente, com assinatura digital, sem risco de perda de documentos e com redução de custos operacionais. A Justiça Federal foi ainda mais pioneira, migrando para o processo eletrônico no início dos anos 2000.

A pergunta que fica é simples: se o Judiciário conseguiu, por que tantas procuradorias municipais ainda não conseguiram? A resposta, infelizmente, não está na tecnologia — que existe, é gratuita e está disponível. Está na prioridade política que cada gestor decide dar à modernização do serviço público.

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Linha do Tempo: A Evolução do Processo Eletrônico no Brasil

2007
TJPR implanta o Projudi em Campo Largo (PR). Primeiro passo do processo eletrônico integrado no Judiciário paranaense.
2013
Criação do Processo Eletrônico Nacional (PEN) pelo governo federal. Acordo de cooperação que dá origem ao SEI como plataforma compartilhada entre entes públicos.
2019
TJPR integra o Projudi com delegacias, MP, procuradorias e TRF4. Mais de 12 milhões de processos tramitando exclusivamente de forma digital no Paraná.
Até 2020
Londrina (PR) consolida o SEI como sistema padrão de processos administrativos. Meta: estação de trabalho 100% sem papel em toda a prefeitura.
Abril 2026
PGM de Sumaré (SP) é invadida. Processos em papel são destruídos por vândalos. O episódio expõe a vulnerabilidade de procuradorias que ainda não migraram para o processo eletrônico.
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Processo em Papel vs. Processo Eletrônico

Situação de RiscoProcesso em PapelProcesso Eletrônico
Vandalismo / invasão físicaDestruição irreversívelDados intactos em servidor/nuvem
IncêndioPerda totalBackup automático preserva tudo
EnchenteInutilização dos autosSem impacto
Extravio por descuidoProcesso desapareceRastreabilidade completa
Acesso remoto pelo servidorImpossívelDe qualquer lugar, com segurança
Custo de armazenamentoSalas, armários, papelServidor digital — custo mínimo
Adulteração de documentosDifícil de detectarLog imutável de todas as ações
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O que Sumaré Ensina às Demais Procuradorias

O episódio de Sumaré não é apenas uma notícia de vandalismo. É um espelho. Reflete o estado de vulnerabilidade em que se encontram municípios que, por falta de prioridade política ou de planejamento administrativo, ainda não migraram seus processos para o ambiente digital.

A boa notícia é que o caminho está traçado e não custa caro. O SEI é gratuito. O TJPR disponibiliza integração com suas plataformas. A Justiça Federal serviu de modelo. Londrina provou que é possível. O que falta, em muitos casos, é apenas a decisão de fazer.

"Enquanto procuradorias municipais não modernizarem seus processos, cada chuva forte, cada incêndio ou cada invasão noturna será uma ameaça real à continuidade do serviço público. Isso não é aceitável em 2026."
Marco Antonio Bosio — bosio.adv.br

O caso de Sumaré deve ser lido como um alerta institucional, não apenas como um caso policial. E o alerta não é novo: a Justiça Federal, o TJPR e municípios como Londrina já responderam a ele há anos. Resta saber quantos outros episódios como este ainda serão necessários para que as procuradorias municipais brasileiras encerrem, de vez, a era do processo em papel.

📋 Fontes e Referências

MB

Marco Antonio Bosio

Advogado  ·  OAB/PR 29.604  ·  Direito Público e Municipal

Advogado com atuação em Direito Público, Municipal e Administrativo. Acompanha temas de transparência, gestão pública, modernização administrativa e controle social.

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